Geração Z até os idosos. [1]O impacto cognitivo desse padrão de consumo de conteúdo está associado ao brain rot, um fenômeno de deterioração mental da era digital caracterizado por declínio cognitivo, déficit de atenção e dessensibilização emocional decorrentes da exposição prolongada a conteúdo digital de baixa qualidade.
A visualização frequente de vídeos curtos tem sido associada a efeitos psicológicos negativos, como depressão, ansiedade e padrões de uso compulsivo. [3]Dados recentes sugerem que o consumo excessivo de vídeos curtos possa estar associado a uma reorganização seletiva da atividade cerebral em repouso, com consequências negativas para o funcionamento cognitivo-emocional, particularmente a regulação da atenção e o controle executivo.
Apesar disso, os vídeos curtos são cada vez mais utilizados em contextos educacionais devido à suposta capacidade de melhorar a motivação e o envolvimento dos usuários, sem levar em conta os resultados contraditórios sobre sua eficácia na aprendizagem [5] e os danos cognitivos associados ao uso, que implicam deterioração da memória de trabalho em decorrência da redução da capacidade verbal e do menor envolvimento das redes semânticas.
Atenção: um processo cognitivo complexo
O cérebro tem uma capacidade limitada de processar os estímulos sensoriais provenientes do mundo físico em um determinado momento e recorre ao processo cognitivo da atenção para direcionar os recursos neurais de acordo com as demandas do ambiente. A atenção pode ser dividida em duas funções distintas:
- atenção bottom-up (“de baixo para cima”, guiada pelo estímulo), que se refere à orientação da atenção por fatores externos em direção a estímulos notórios devido às suas propriedades intrínsecas em relação ao pano de fundo;
- atenção top-down (“de cima para baixo”, direcionada ao objetivo), que se refere à orientação interna da atenção com base em conhecimentos prévios, planos voluntários e objetivos atuais.
Estudos de neurofisiologia têm fornecido, nos últimos anos, insights importantes sobre os circuitos neurais e os mecanismos da atenção bottom-up e top-down, destacando como a atenção pode influenciar a frequência média de ativação neuronal, bem como sua variabilidade e a correlação entre neurônios de regiões cerebrais específicas.
Efeitos sobre a memória
Um estudo usou ressonância magnética funcional para comparar a atividade neural de 57 participantes durante a fase de recuperação após a exposição a vídeos curtos e fragmentados em comparação com a exposição a vídeos longos e contínuos. [9] Foram analisadas as variações do sinal dependente do nível de oxigenação sanguínea (BOLD) durante um teste de memória para esclarecer como o formato do vídeo poderia modular os processos de recuperação cognitiva, com os seguintes resultados:
Precisão da memória – foi menor no grupo que assistiu aos vídeos curtos do que naquele que assistiu ao vídeo longo. Durante a recuperação da memória, esse grupo também apresentou menor ativação no claustro esquerdo, no núcleo caudado esquerdo e no giro temporal médio esquerdo, além de menor conectividade funcional entre o núcleo caudado e o claustro.
Claustro – a menor ativação dessa região pode refletir dificuldade para integrar as informações necessárias à reconstrução de uma representação coerente durante a evocação da memória. Segundo os autores, a narrativa contínua dos vídeos longos pode favorecer a formação de um traço de memória mais coerente e, consequentemente, facilitar a reconstrução da cena durante a recuperação.
Núcleo caudado – é um ponto crucial no circuito pré-frontal-estriatal e desempenha múltiplas funções nos processos cognitivos. No grupo que assistiu a vídeos curtos, sua ativação reduzida parece refletir um enfraquecimento do controle de atenção top-down e do processamento direcionado ao objetivo durante a recuperação da memória.
MTG – é uma região central para o processamento semântico, envolvida na recuperação lexical e conceitual e na integração de informações multimodais. A menor ativação da MTG durante a recuperação no grupo que assistiu a vídeos curtos coincidiu com menor precisão mnemônica, sugerindo que a exposição a estímulos fragmentados dificulte o processamento semântico profundo e a integração contextual.
De modo geral, esses achados confirmam o efeito prejudicial, em termos comportamentais, dos vídeos curtos fragmentados para a memória, identificando três déficits específicos potencialmente interligados: comprometimento da integração de informações, redução do controle cognitivo e alteração do processamento semântico. [9]
Os participantes que aprenderam com vídeos curtos apresentaram uma precisão significativamente menor na memória imediata e demonstraram uma taxa de esquecimento mais elevada quando lhes foi explicitamente solicitado que se lembrassem.
Os vídeos curtos evocaram maior sincronia nas regiões temporais e frontais associadas ao processamento de atenção bottom-up. Além disso, as análises de conectividade funcional indicaram que os vídeos curtos enfraqueceram a conexão entre as redes de controle visual, atencional e cognitivo.
Pontos a serem considerados na prática clínica
A disseminação de vídeos curtos (no estilo das redes sociais), caracterizados por mudanças rápidas de conteúdo e por uma fragmentação constante, resultou em sua crescente adoção nos ambientes de aprendizagem. [5]
A aprendizagem por meio de vídeos curtos pode comprometer a memória, alterando os sistemas cerebrais envolvidos na integração de informações, no controle cognitivo e no processamento semântico.
Evidências neurocomportamentais sugerem que a exibição de vídeos curtos em contextos de redes sociais esteja associada a uma redução da sincronização neural e da capacidade de memória. [11]
Este conteúdo foi traduzido de Univadis Itália – Medscape Professional Network
Fonte:https://portugues.medscape.com/
Por: Dr. Paolo Spriano
Jacy Ramos – Pscoterapeuta Terapia, saúde da mente, amor próprio, Terapia Individual, Terapia para Casais, Avaliação Psicoterápica