Poucas falas do teatro atravessaram tantos séculos quanto a de Próspero no quarto ato de A Tempestade. “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”, tradução mais conhecida em português, vem de um verso de William Shakespeare sobre a brevidade da vida. A frase está no texto da peça e ganha ainda mais força quando lida dentro da cena em que aparece.
Para a Universidade de Liverpool, que publicou um texto sobre o trecho no blog de suas coleções especiais, a fala é metáfora do fim da apresentação. Num sentido mais amplo, fala do fim de todas as coisas pela morte, pela decadência e pela passagem do tempo.
Os sonhos, nessa leitura, viram a medida da existência humana: intensa, mas passageira. A palavra “sono” fecha a ideia, e uma leitura frequente vê a vida cercada de repouso antes do nascimento e depois da morte, uma imagem que soa mais como consolo do que como lamento.
Reflexões sobre os limites da condição humana também aparecem em pensadores clássicos. A série de citações do Oeste Geral traz uma delas, do filósofo estoico Epicteto.
Por que a fala dialoga com o palco do teatro elisabetano?
A fala conversa com o palco porque foi escrita por um homem de teatro, formado no teatro elisabetano, para ser dita diante de uma plateia. Quando Próspero menciona “o grande globo”, a expressão remete ao planeta e também ao Globe, o teatro da companhia do autor em Londres.
Uma nota de leitura da Eastern Washington University lembra que o Globe foi batizado e decorado para recordar ao público que o mundo inteiro é um palco. A ideia da vida como encenação era cara ao teatro elisabetano e atravessa várias peças do dramaturgo.

A cronologia reforça o peso da cena. Segundo a Universidade de Liverpool, A Tempestade foi escrita entre 1610 e 1611, estreou em 1611 na corte e costuma ser apontada como a última peça que Shakespeare escreveu sozinho. A obra só chegou ao papel em 1623, no Primeiro Fólio, como registra a página da Folger sobre A Tempestade.
Como a reflexão de Próspero conversa com a vida de hoje?
A reflexão de Próspero continua atual porque trata de algo que não mudou em quatro séculos: a consciência de que o tempo passa e de que tudo o que construímos é provisório. Em vez de desespero, a fala sugere serenidade, já que o próprio mago acaba aceitando os limites do seu poder.
Há também uma lição sobre presença. Se a vida é breve como um sonho, faz sentido prestar atenção ao agora, às pessoas por perto e às pequenas alegrias do dia. Que tal reler a cena com calma, de preferência em voz alta, e perceber o que esse verso de Shakespeare desperta em você?
Para quem gosta de olhar o mundo com curiosidade, a ciência também guarda suas histórias de mistério. Esta vem do ponto mais fundo dos oceanos.
Fonte: https://revistaoeste.com/
Da Redação
