O tema ganhou destaque novamente neste sábado (3), em reportagem exibida pelo programa É de Casa, da TV Globo, sobre estratégias que podem contribuir para preservar a memória e manter o cérebro ativo.
Mas, afinal, é possível “treinar” o cérebro? Jogos ajudam? E o que podemos fazer no dia a dia para cuidar da memória?
A ciência já oferece algumas respostas.
O que ajuda a preservar a memória?
Um dos estudos mais importantes sobre prevenção do declínio cognitivo é o FINGER (Finnish Geriatric Intervention Study to Prevent Cognitive Impairment and Disability), realizado na Finlândia.
A pesquisa acompanhou 1.259 pessoas entre 60 e 77 anos, com risco aumentado para demência, e comparou orientações gerais de saúde com uma intervenção que combinava diferentes estratégias: orientação nutricional, exercícios físicos, treinamento cognitivo e acompanhamento de fatores de risco cardiovasculares e metabólicos.
Depois de dois anos, os pesquisadores observaram diferença favorável no desempenho cognitivo do grupo submetido à intervenção multidomínio. Os resultados reforçaram uma ideia importante para a saúde cerebral: não existe uma única fórmula para preservar a cognição. Cuidar do cérebro envolve diferentes aspectos da vida.
Entre eles estão:
- manter-se fisicamente ativo;
- adotar uma alimentação equilibrada;
- acompanhar fatores como pressão arterial, colesterol e glicemia;
- preservar vínculos e atividades sociais;
- continuar aprendendo;
- desafiar diferentes habilidades cognitivas.
Jogos ajudam a exercitar a memória?
Podem ajudar a estimular diferentes habilidades cognitivas, principalmente quando oferecem desafio, novidade e exigem estratégias variadas.
E aqui existe uma diferença importante.
Fazer sempre a mesma atividade, que já se tornou fácil e automática, não representa para o cérebro o mesmo desafio de aprender algo novo ou solucionar um problema que exige atenção, raciocínio, memória e flexibilidade.
No próprio estudo FINGER, por exemplo, o treinamento cognitivo foi estruturado e frequente: incluiu encontros em grupo e sessões individuais computadorizadas realizadas de duas a três vezes por semana.
Por isso, a estimulação cognitiva vai além de simplesmente “passar o tempo” com um jogo.
Jogos podem ser ferramentas interessantes quando inseridos em uma rotina que desafia diferentes capacidades, como memória, atenção, raciocínio lógico, linguagem, velocidade de processamento e funções executivas.
Então, o cérebro pode ser treinado?
O cérebro mantém ao longo da vida a capacidade de responder a experiências e aprendizagens — propriedade conhecida como neuroplasticidade.
Aprender algo novo, encontrar soluções diferentes para um problema, exercitar habilidades cognitivas e sair de padrões automáticos são maneiras de oferecer estímulos ao cérebro.
Isso não significa que fazer exercícios cognitivos seja uma garantia contra doenças como Alzheimer ou outras demências. O desenvolvimento dessas condições envolve diversos fatores, alguns modificáveis e outros não.
A estimulação cognitiva deve ser entendida, portanto, como uma das estratégias que compõem os cuidados com a saúde cerebral, ao lado dos demais hábitos associados a um envelhecimento saudável.
Estimulação cognitiva também é objeto de pesquisa no Brasil
Se pesquisas internacionais vêm investigando formas de preservar a cognição durante o envelhecimento, o tema também está sendo estudado no Brasil.
Em 2026, foi publicado um artigo inédito na revista International Psychogeriatrics que demonstrou que o método Supera, baseado na estimulação cognitiva, está associado a uma série de benefícios para pessoas idosas escolarizadas e sem comprometimento cognitivo. O estudo foi conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), com colaboração do Departamento de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP) e Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Divisão de Neurologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Entre os principais resultados estão a redução de 60% nas queixas cognitivas, melhora de aproximadamente 45% na memória ao longo de um ano com o método Supera, considerando o conjunto de funções executivas e cognição geral, e redução de 29% dos sintomas depressivos. “Sem dúvida, podemos afirmar que esses dados são representativos e evidenciam que as pessoas que participam das atividades com o método Supera apresentam vantagens significativas para sua vida como um todo”, afirma a gerontóloga Thais Bento, autora principal do estudo e pesquisadora do HCFMUSP.
Esse tipo de investigação é importante porque permite compreender, com metodologia científica, os possíveis efeitos da estimulação cognitiva sobre diferentes aspectos da cognição e do bem-estar ao longo do envelhecimento.
5 formas de manter o cérebro ativo no dia a dia
Atividade física regular: O exercício físico estimula a neuroplasticidade (criação de novas conexões neurais), melhora a memória e reduz o risco de declínio cognitivo. Recomenda-se acumular pelo menos 150 minutos semanais de atividades moderadas.
Estimulação cognitiva: Desafiar a mente com aprendizados novos — como um idioma, um instrumento musical ou leitura complexa — aumenta a reserva cognitiva (a capacidade do cérebro de resistir a lesões e ao envelhecimento).
Alimentação balanceada: Dietas ricas em vegetais, frutas, grãos integrais e gorduras boas (como o ômega-3 encontrado em peixes) protegem os vasos sanguíneos cerebrais e combatem inflamações.
Sono de qualidade: Dormir de 7 a 8 horas por noite permite que o cérebro execute uma “limpeza” metabólica de toxinas acumuladas durante o dia e consolide as memórias.
Conexões sociais: Manter laços afetivos e uma vida social ativa reduz o isolamento, diminui o estresse e funciona como um estímulo contínuo para as redes neurais.
Estimular o cérebro é um hábito para a vida
A principal mensagem das pesquisas sobre saúde cerebral talvez seja justamente esta: cuidar da memória não começa quando começamos a esquecer.
Assim como a atividade física faz parte dos cuidados com o corpo, manter uma rotina rica em estímulos cognitivos pode fazer parte dos cuidados com o cérebro.
No Supera, a estimulação cognitiva é realizada de maneira estruturada, combinando exercícios para diferentes habilidades cognitivas, ábaco, jogos, dinâmicas e atividades que propõem novos desafios ao cérebro.
Mais do que repetir aquilo que já sabemos fazer, a proposta é continuar aprendendo.
Fonte: https://metodosupera.com.br/
Por Sueli Carvalho