Maria Homem: “Não é só empoderar mulheres. É repensar o modelo de liderança” — Foto: Mônica Bento/Valor

Maria Homem fala da solidão do poder e da carga mental sobre as mulheres

Um divã coletivo: a psicanalista falou e respondeu perguntas para uma plateia feminina de cerca de 100 presidentes, conselheiras e empreendedoras.

Uma espécie de divã coletivo. Foi assim, durante uma hora e meia, que cerca de 100 presidentes mulheres, conselheiras e empreendedoras ouviram a psicanalista Maria Homem, colunista do Pipeline, falar – e puderam fazer perguntas a ela – sobre liderança feminina, na sétima edição do “Café com as CEOs”.

O encontro foi promovido pelo jornal Valor com parceria da revista Marie Claire, na sexta-feira (10), no Bain Innovation Hub, em São Paulo. A conversa passou pelo falar “não” ou “sim”, pela solidão da liderança e pela carga mental da mulher na economia do cuidado, entre outros temas, sempre com contexto histórico dado pela psicanalista.

Liderança, aliás, é o tema do livro “Procura-se: Uma nova liderança para um novo tempo”, que Maria Homem vai lançar em junho pela Editora Record. Na obra, a autora descreve que muitas mulheres chegam ao topo, mas sem conseguir sustentar plenamente esse lugar, que, devido a construções históricas, é associado ao poder e à legitimidade do masculino.

Maria Homem: “Não é só empoderar mulheres. É repensar o modelo de liderança” — Foto: Mônica Bento/Valor

Isso se espelha nas executivas com questões como autossabotagem, hesitação diante de oportunidades e desconforto com a visibilidade. “O lugar da liderança é altamente solitário, especialmente para as mulheres, pois o poder nunca foi um lugar legitimado para elas. Daí é comum ela se perguntar: será que eu posso mesmo estar aqui?”

Esse quadro é agravado por outra dificuldade recorrente: dizer “não”. De acordo com Maria Homem, mulheres foram socialmente treinadas para atender demandas e cuidar do outro, o que se traduz em sobrecarga no ambiente corporativo e na esfera pessoal, até resultando em adoecimento. “Existe uma expectativa permanente de disponibilidade. É uma construção social, não é natural.”

O cenário perdura porque as empresas ainda operam com baixo nível de letramento emocional, o que limita a capacidade de lidar com conflitos, vulnerabilidades e saúde mental. É preciso, segundo a especialista, promover uma transformação mais ampla do próprio conceito de liderança. Mas isso não significa adotar o modelo baseado em força, competição e dominação – historicamente associados ao masculino -, pois ele também mostra sinais de esgotamento inclusive no plano geopolítico.

“A força bruta está em crise”, afirma, ao citar conflitos como a guerra na Ucrânia e a guerra em Gaza. Ela destaca, portanto, a importância de reequilibrar duas dimensões historicamente dissociadas na cultura ocidental: razão e emoção. “Não é só empoderar mulheres. É repensar o modelo de liderança, sair da lógica da dominação e caminhar para um modelo de coabitação”, afirma.

Entrevistada por Maria Fernanda Delmas, diretora de Redação do Valor, e Maria Rita Alonso, diretora de Redação da Marie Claire, Maria Homem defendeu um modelo baseado em negociação, escuta e construção coletiva. “Ou a gente aprende a negociar e conviver com a diferença ou a gente se destrói.”

A psicanalista lembra que desde a Grécia antiga há um movimento de contenção do pathos – as paixões – para a afirmação do logos, a racionalidade. “Nem só logos, nem só pathos. O desafio é fazer essa síntese”, diz. Para as empresas, isso se traduz no desenvolvimento de maior maturidade emocional, não apenas como agenda de bem-estar, mas como parte da estratégia de gestão. Na ausência dessa maturidade, problemas como “burnout” e conflitos interpessoais tendem a se intensificar.

Na avaliação da psicanalista, habilidades tradicionalmente associadas ao feminino, como escuta, comunicação e negociação, tendem a ganhar centralidade. “Quem foi educado a falar, a transmitir, a negociar talvez esteja mais preparado para esse novo momento”, diz. Ainda assim, alerta para o risco de sobrecarga decorrente dessa expectativa. “Não dá para substituir um modelo por outro e continuar exigindo tudo das mulheres. Senão a gente só muda a forma da exploração.”

Tem que jogar o jogo e, ao mesmo tempo, se investigar. E isso é muito difícil”
— Maria Homem

Maria Homem recorre às raízes históricas dessas dinâmicas para explicar o contexto atual em que mulheres ainda enfrentam dificuldade em afirmar desejo, impor limites e ocupar espaços de poder. Aponta que a formação da cultura ocidental, marcada pela tradição judaico-greco-romana, fez com que houvesse um progressivo reforço de estruturas patriarcais, especialmente com a passagem do politeísmo para o monoteísmo. “O feminino foi sendo cada vez mais recalcado ao longo da história.”

Ela traz ainda o impacto do inconsciente nas decisões de carreira. “Às vezes você está reproduzindo uma história, tentando provar algo, buscando reconhecimento, sem perceber. Por isso, tem que jogar o jogo e, ao mesmo tempo, se investigar. E isso é muito difícil, especialmente em lugares de liderança, que são solitários”, diz.

O autoconhecimento aparece como ferramenta central, ainda que pouco explorada no ambiente corporativo. Além das exigências profissionais, mulheres enfrentam uma cobrança constante em relação à aparência, especialmente com o avanço da idade. “Você não pode envelhecer em paz. Existe uma pressão enorme para esconder o tempo”.

Para a psicanalista, essa dinâmica reforça a ideia de que o feminino precisa ser constantemente ajustado, ou mesmo mascarado, para ser aceito, e esse processo consome tempo, energia e recursos. “Há uma indústria inteira baseada em fazer você achar que não é suficiente”, diz. Por isso, a mulher precisa descobrir do que realmente gosta – no se arrumar e no se exercitar, por exemplo – e saber separar do que é uma imposição social.

Maria Homem também falou sobre a busca de um estado em que todos os seres humanos se reconheçam, enfim, como singulares – sem a necessidade das políticas de diversidade e inclusão ainda tão necessárias hoje.

Segundo Delmas, o intuito do “Café com as CEOs” é trazer temas que inspirem as líderes. “A ideia é causar uma sensação de ‘puxa, não é que houve alguma coisa diferente, interessante e que me fez pensar?’”, afirma.

Daniela Toffoli, diretora das marcas de lifestyle da Editora Globo, conta que os conteúdos são elaborados para ajudar no desenvolvimento das participantes. “A Marie Claire completa 35 anos de Brasil, neste mês, mas a gente começou há quase 90 [anos] lá na França, no meio do movimento feminista. Então, a gente sempre olhou para essas questões de direito das mulheres e de liderança feminina”, disse.

Por Natália Flach — De São Paulo
Fonte: https://valor.globo.com

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Sobre Jacy Ramos - Psicoterapeuta

Pedagoga, Teóloga, Pós Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Formação em Alta Performance, Especialista em Leitura Corporal e Comportamental. Me encontrei na Psicologia, onde pude compreender alguns aspectos que só através do autoconhecimento pude entender. E assim, olhar o outro como ser, Ser Humano, que pode ressignificar o passado e assim viver livre. Agende uma Consulta +559699136-9804 [email protected]

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