Marco Aurélio escreveu as "Meditações" em grego, durante campanhas militares, sem intenção de publicá-las

Frase do dia do estoicismo: “Damos mais valor à opinião dos outros sobre nós do que à nossa própria”, a reflexão de Marco Aurélio sobre a aprovação alheia

Marco Aurélio anotou isso num caderno particular, no acampamento militar. É uma contradição simples e quase ninguém percebe estar dentro dela.

Quase todo mundo já reformulou uma mensagem cinco vezes antes de enviar, ou passou horas processando um comentário de alguém cuja opinião não respeita particularmente. E ninguém se lembra de ter decidido, em algum momento, que a avaliação daquela pessoa  valia mais que a própria. A decisão nunca foi tomada. O comportamento existe assim mesmo.

Damos mais valor à opinião dos outros sobre nós do que à nossa própria.

Marco Aurélio registrou essa contradição no livro XII das “Meditações”, e o modo como ele a registra importa tanto quanto o conteúdo. Ele não afirma. Estranha. A seção começa com a confissão de que ele já se perguntou muitas vezes como aquilo era possível, e é esse espanto, e não a constatação, que dá o tom do trecho inteiro.

O raciocínio tem três movimentos. Primeiro, a premissa que ninguém contesta: todo homem ama a si mesmo mais do que a qualquer outra pessoa. Segundo, o que essa premissa deveria implicar e não implica. Se cada um se prefere a todos os demais, deveria também preferir o próprio julgamento ao alheio, e acontece o inverso. A mesma pessoa que se coloca em primeiro lugar em tudo entrega a terceiros a decisão sobre o próprio valor.

O terceiro movimento é o teste, e é a parte mais desconfortável. Marco Aurélio imagina um deus ou um professor sábio que se aproxime de alguém e o obrigue a não pensar nada que não diga em voz alta no instante em que pensa. Ninguém suportaria um único dia. É esse tribunal, cujo funcionamento interno nenhum de nós toleraria expor, que recebe a autoridade sobre o próprio valor. A seção fecha registrando que temos muito mais respeito pelo que os vizinhos vão pensar de nós do que pelo que nós mesmos vamos pensar.

Vale saber que o texto não foi escrito para ninguém. Não é tratado, discurso nem carta. São anotações que o imperador fazia para si mesmo, em grego, para reorganizar a própria conduta, e não há indício de que pretendesse publicá-las. O que se lê é um homem se corrigindo em particular. E há um detalhe que torna a anotação ainda mais estranha: quem a escreve era, naquele momento, a pessoa cuja aprovação todo o império buscava. Ele estava registrando que continuava buscando a dos outros.

Duas leituras equivocadas circulam com a passagem, e as duas se desfazem com o texto na mão. A primeira a transforma em licença para desprezar todo julgamento externo. O estoicismo não sustenta isso, e a mesma obra insiste repetidamente em dever, serviço público e cooperação. A segunda usa o trecho como elogio da autoconfiança, mas ele é autocrítica e não encorajamento. Marco Aurélio não afirma que o próprio julgamento seja confiável. Aponta que é incoerente confiar menos nele do que no de estranhos, e o caderno inteiro existe justamente porque ele desconfiava de si também.

Quase dois mil anos depois, a anotação atravessa intacta um cenário que ele não poderia imaginar, em que a opinião alheia sobre cada pessoa é contável, visível e atualizada em tempo real. A pergunta que ele deixou continua a mesma: de quem exatamente é a aprovação que está sendo esperada, e por que a dela vale mais.

Fonte: https://www.nsctotal.com.br/
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Sobre Jacy Ramos - Psicoterapeuta

Pedagoga, Teóloga, Pós Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Formação em Alta Performance, Especialista em Leitura Corporal e Comportamental. Me encontrei na Psicologia, onde pude compreender alguns aspectos que só através do autoconhecimento pude entender. E assim, olhar o outro como ser, Ser Humano, que pode ressignificar o passado e assim viver livre. Agende uma Consulta +559699136-9804 [email protected]

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